"Nega da Capoeira", sinônimo de solidariedade em Ilhabela

"Nega da Capoeira", sinônimo de solidariedade em Ilhabela

Silvana dos Santos Domingues nasceu em São Vicente e viveu uma infância muito sofrida. Viu a mãe ser vítima de violência doméstica promovida pelo pai, machista e racista. 

Ainda na infância, quando sua mãe perdeu a guarda dos filhos, Silvana a viu viver na rua, sem apoio da família. Aos 12 anos sua mãe faleceu, uma perda dolorosa. Viveu com o pai, muito severo, ciumento e agressivo com os próprios filhos. 

Em um determinado momento de sua vida, seu pai começou a deixar os filhos na casa de uma tia e foi aí que Silvana conheceu a Capoeira através de uma prima. Foi observando a ginga, que a Nega se apaixonou. 

Mesmo sendo negro, o pai não queria que ela se envolvesse com nada que remetesse a Cultura Afro, pois tinha muito preconceito de suas raízes. Silvana conta que o pai não aceitava namorados negros, pois dizia que a família precisava ser “embranquecida”. 

Vendo que sua vida não seria fácil, Silvana saiu para ir ao mercado, seguiu seu caminho e só retornou para família anos depois. Seguiu seu coração, começou a jogar capoeira, fazer parte de conselhos da Cultura Negra, dança Afro, Maculelê, Samba de Roda no Teatro Senzala, onde saia para fazer apresentações de dança. Foi nessa época que Silvana Domingues passou a ser conhecida como ‘Nega da Capoeira’. 

Anos depois retornou a sua família, e viu que a indiferença ainda morava ali, mesmo com um abraço do pai, que a fez entender que precisava continuar seguindo seu caminho. 

Trabalhando e morando em “casa de família” para poder ter sua liberdade, Silvana se desgarrou da família, passou a se envolver mais no Movimento Negro e acabou entrando para uma Academia de Capoeira. Um dos Mestres viu seu potencial e sua garra e a levou para Associação de Capoeira Senzala Santos, onde começou a dar aulas em troca de aprendizado. 

Em determinado momento da vida, Silvana teve a oportunidade de migrar para França, mas o destino lhe guardava um compromisso em Ilhabela. Em 1989 engravidou de seu primeiro filho (Noah) e a partir daí começou a ver que precisava de um lugar mais tranquilo para criá-lo, sem violência e onde pudesse ajudar outras pessoas. 

Em 1991 mudou-se definitivamente para Ilhabela, fincando aqui suas raízes. Nessa época começou a ver as crianças na rua, o que a deixava muito preocupada. Com seu berimbau nas mãos, começou a contar a história da Capoeira para essas crianças. 

Na ocasião, Silvana percebeu que precisava movimentar a “Causa Negra” e fazer os negros participarem, serem respeitados e sentirem orgulho de suas raízes, pois via aqui o movimento do Samba, da Congada, mas não via um grupo reunido para tratar da Cultura Afro. 

Passou anos dando aulas de Capoeira e introduziu um grupo de dança Afro, para reviver o Maculelê e o Samba de Roda.

Junto com a amiga Nádia Fernanda, Nega da Capoeira criou o grupo “Um grito de liberdade”, montaram um corpo de Ballet Afro e na primeira apresentação em frente à Igreja Matriz foram escorraçadas pelo Padre, que proibiu a apresentação sob a alegação de se tratar de danças profanas.

Sensibilizado, um caiçara abriu as portas de seu estabelecimento para uma linda apresentação, tratava-se de Cidinho Molinari, proprietário do saudoso Bar Trapiche, na Rua do Meio.

Posteriormente, Nega passou a receber apoio da Comunidade Católica. Juntamente com outros ativistas, conseguiu incorporar Missas Afros, celebradas na Festa da Consciência Negra e com muita luta implantou a Pastoral da Criança Afro. 

Numa parceria com a dona Mariazinha Fazzini, primeira dama na época, Nega conseguiu um espaço no Centro Comunitário para dar aulas de capoeira gratuitamente, onde permaneceu por muitos anos, junto com  Franscisco Ribamar Nunes da Silva, o Mestre Besouro, com quem teve dois filhos (Thainãn e Matheus). O casal cuidava do espaço como se fosse sua casa, pois ali começaram a compreender a grandeza do Projeto. 

Hoje a Nega da Capoeira é conhecida por seus projetos sociais e seu envolvimento forte com a Comunidade. Sonhadora, militante do Movimento Negro, protetora de jovens, crianças e mulheres, Silvana Domingues participa ativamente do Projeto Semear, da Associação do Movimento Afrodescendente de Ilhabela e do Grupo de Escoteiros de Ilhabela — Maembipe. 

Um exemplo de vida, de lutas e conquistas, Silvana não desiste e busca sempre o melhor para o próximo.

O trabalho de uma vida dedicada a solidariedade foi oficialmente reconhecido em setembro de 2017, ocasião em que a ‘ilhabelense’, Silvana dos Santos Domingues, recebeu o Titulo  de “Cidadã Honorária de Ilhabela”.